A Pandemia covid, o Desequilibrio Ecossistémico e as Lições não Aprendidas: O Não-Exemplo de Cadiz

COMUNICADO
30/04/2020

À medida que a pandemia de COVID-19 começa a mostrar sinais de abrandamento (pelo menos aparente), é também notório o desejo político, económico e social do regresso a um cenário “business-as-usual” ou à “normalidade”.

O exemplo do ocorrido em Zahara de los Atunes, na província de Cádiz do país vizinho durante esta semana, retrata bem a apressada busca pela normalidade a qualquer custo, na qual o envenenamento e destruição de uma grande porção do cordão dunar costeiro pela pulverização de lixivia se justificou através da “melhor das intenções”, permitindo as crianças usufruir do espaço em segurança.

Tal como denunciado pelas comunidades locais e associações ambientalistas, esta decisão e comportamento reverteu num “dano brutal”, e o genocídio ambiental provocado “limpou” a fauna, flora e habitats numa altura de plena importância para o desenvolvimento de espécies de invertebrados e nidificação de aves, das quais espécies incluídas no livro vermelho de Espanha, como o borrelho-de-coleira-interrompida (Charadrius alexandrinus).

É certo que as autoridades locais, em reação às denuncias apresentadas, reconheceram a iniciativa como um erro, sublinhando um “embora” de boa intenção para as crianças passearem fora de casa.

O FAPAS não podia deixar de reforçar que as boas intenções, sejam elas expressas na lixivia, no glifosato ou na “limpeza” de terrenos, não podem continuar a justificar o desequilíbrio ecológico e funcional dos habitats, e em particular daqueles habitats já em risco de colapso. A relação entre o desequilíbrio ecológico e a emergência de pragas e doenças, das quais epidemias e pandemias, é ilustrada em vários momentos ao longo da história humana. Há décadas que a evidência científica médica mostra o contributo da simplificação dos habitats e a da degradação da complexidade biológica na amplificação de efeitos patogéneos.

Face a habitats cada vez mais perturbados, invadidos (por humanos) e menos resilientes, as previsões apontam em reincidências, mutações e transmissões destes agentes causadores de doenças a níveis sem precedentes. Depreende-se, portanto, que a gestão dos habitats devesse seguir precisamente no sentido de os salvaguardar, permitindo-lhes não só uma capacidade de regulação e resiliência adequada para a sociedade atual, mas também para o verdadeiro usufruto do ambiente exterior por parte das gerações futuras. E se os motivos anteriores não são suficientes para repensar a forma como gerimos os habitats, questionemos sobre de que serve levarmos as nossas crianças a passear numa praia de calhaus e água que em breve não estará lá…

Certo que a iniciativa de Cádiz é apenas um (não)exemplo, permitindo um apelo que o retorno pós-COVID seja feito num cenário de “normalidade anormal”, de ações de gestão mais refletidas, ponderadas e resilientes ao futuro que esperemos ser tudo menos “business-as-usual”.

Quinta de Chão de Carvalhos, 30/04/2020

A Direção Nacional

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